Bata de volta!
(Eduardo Vieira — 30/jan/2023)
Esse texto parece que começa mal mas melhora! O ano de 2022 foi simplesmente o ano mais difícil da minha vida adulta. Neste ano o mundo literalmente se dedicou a me espancar, coisa incrível mesmo.
Separação recente, desastre amoroso, catástrofe financeira, complicações familiares, um turbilhão de dores que se revezavam para achar aquele ponto mais dolorido para ali desferir os golpes mais agudos. Para piorar passei 3 meses desse tempo cumprindo uma exaustiva agenda de viagens semanais para São Paulo. E finalmente, o ano se encerra da forma nefasta que todos presenciamos. Não, não deve ter sido um ano fácil para ninguém.
Mas…
E se eu olhasse por outro ângulo? Neste ano eu presenciei, na minha agonia, as mais belas demonstrações de carinho e de apoio que já sonhei em receber. Foram tantas e tão especiais que fariam transbordar o maior dos vasos. Neste ano eu apresentei nada mais nada menos que um espetáculo teatral cujo sucesso artístico só não foi maior que seu fracasso financeiro. Mas o compromisso foi concluído, com a ajuda da Alana(*), que participou ativamente desse processo.
Neste ano minhas filhas estiveram saudáveis e protegidas. Meus amigos, firmes no apoio e no carinho inestimável. Um antigo parente ressurgiu das areias do tempo me enchendo de alegria e carinho com uma generosidade do tamanho do mundo. E, apesar de todos os pesares, eu sobrevivi, dando um enorme passo rumo à vitória, como bem dizia o saudoso professor Olavo.
Olhando para trás eu vejo que o que me gerou as maiores dores foram, sem dúvida, meu ego e minhas fantasias, criando pessoas inexistentes, situações irreais e expectativas nefelibáticas.
Bem, uma parte disso poderia ser reduzida pois os excessos em nossa alma são os causadores das dores desnecessárias. Mas por outro lado, eu não haveria de querer me livrar de toda a minha boa vontade para com o próximo. Não abandonaria meu otimismo para me livrar da dor. E nem me privaria de um grande amor com medo de doer depois. Passando por isso tudo eu vejo que o ego não se ajusta com sua destruição ou negação completa da personalidade. A dor é tão parte da vida quanto a alegria. Temos que manter os dois e arranjar uma forma de sustento para as horas ruins. E é na dor que se aprende da melhor forma sobre isso.
Ainda hoje, sendo alvo dos canhões do sistema, claudicante, eu digo com cristalina certeza. Essa forma é o amor de Deus. É ali, quando se está sendo jogado a murros nas cordas que se pode voltar para o canto do ringue e olhar para cima, entregando suas dores a Deus.
Quantas vezes não caminhei sozinho nos bastidores de um teatro vazio pedindo a Deus que me enchesse de Amor a ponto de que pudesse transbordá-lo para a platéia? Foram esses momentos de combate contra o desespero que me permitiram exultar tão vivamente quando o teatro lotou. Para que exista a alegria da vitória é necessário que haja a dor da derrota. Sem as trevas a luz passa despercebida.
Pois esses dias assisti ao filme “A Princesinha”, de 1995, baseado na obra de Frances Hodgson Burnett, que cito com carinho. Ao meu lado, minha caçulinha, atenta e curtindo o cineminha em casa. A história conta sobre a dor de uma menininha que perde o pai, o dinheiro, e quase tudo. Mas não perde a esperança. Choramos os dois abraçados após o filme, emocionados com a sorte que temos e pude com o coração transbordando prometer a ela que jamais a abandonarei. Que nem a morte será capaz de me afastar dela, pois se ela se aproximar eu a espancarei com fúria.
Na verdade, eu já me tornei imortal para as minhas filhas. Com minha presença, com meu amor constante, firme e inabalável. Com as respostas carinhosas a milhares de perguntas, com a proteção contra dezenas de perigos, a maioria pequenos, graças a Deus. Com o conforto quando a dor vinha delas, com os aplausos pelas suas vitórias, com as horas embrulhando presentes de madrugada para que gargalhassem de alegria nas manhãs de Natal.
Ora, nossos filhos são uma enorme oportunidade para se fazer o Bem o tempo todo. Mas o mundo está cheio, abarrotado de oportunidades para todos, pais ou não. E é assim que, se o mundo me der uma surra, eu bato de volta.
Não será uma dezena de dores que me reduzirá ao desespero pois tenho um Pai que zela por mim. E que está ao meu lado quando Dele preciso. Que o mundo quer o Mal, disso sabemos bem. Mas não há o que me faça desistir, não há o que me reduza à derrota porque o amor de Deus está sempre presente em tantas bençãos despejadas tão abundantemente sobre mim.
Nos momentos de dor, de dureza e de medo, só me resta um caminho. Só nos resta um caminho: agradecer a Deus.
E bater de volta!
(*) — co-produtora do espetáculo A Grande Jornada do Homem